18.3.05

10 - Corvo

O sr., por certo, não se incomoda, não é mesmo sr. Estátua? Não importa; já pousei em você e estou cagando. Mas não me entenda mal: não estou dizendo que desprezo sua opinião ou sentimentos. Estou fazendo o que tudo mundo aqui, que tem um par de asas, já fez na sua cabeça: esvaziando os intestinos mesmo, literalmente; de verdade. Chegada e cagada. É de lei; sinto muito.
Sinto muito prazer. He, he!
Por falar nisso, corvus corone. Família dos corvídeos. Encantado.
Então. É uma bela praça, essa. Bem ampla, cheia de verde, crianças, belas estátuas. Bota uns filhotinhos fofos e vira um calendário brega perfeito.
Agora, essa é boa: um pombinho marrento querendo me tirar daqui no empurrão. Nem to acreditando: essa triste criatura acha que sou um pombo! Como disse? O território é seu?! Sai pra lá, galeto de mendigo! Não sou da tua laia, não. Tenta me empurrar daqui para ver se não lhe arrebento a cabeça. To doido pra ver quantos centímetros meu bico consegue entrar na tua caveira. Anda; voa longe pombinha do horizonte. Vai ser gay lá no caralho, Ha, ha!
Hum! Parece que não há corvos neste país. Pelo menos não vi nenhum, até agora. Com certeza, tipos como eu não fazem parte da fauna local, mas isso não parece incomodar os nativos: várias pessoas me viram. Olharam diretamente para mim, mas ninguém ficou perturbado. Será que não conhecem a distribuição geográfica das populações de corvos? Será que sabem o que é um corvo?
Sem ornitólogos... sem corvos...; deve ser o tal “terceiro mundo”.
Gente estúpida. Não digo especificamente os habitantes daqui. O que eu quero dizer é que pessoas são estúpidas: comem coisas estúpidas, bebem coisas estúpidas, fazem as maiores estupidezes. Vivem e morrem estupidamente. Mas pelo menos deveriam saber que eu sou um estranho aqui. Só espero que não pensem também que sou algum tipo de pombo.
Pombos! Ô raça infeliz! Não dá para entender o prestígio que esses bichos tem com as pessoas. Ou melhor, dá sim: eu disse que elas são estúpidas, não? De outra forma, como poderiam gostar tanto de um bicho tão inútil? Tão sujo e contaminado que chega a dar nojo? Deve ser por causa daquela bendita folhinha de oliveira. O mais engraçado é que eu mesmo poderia ter entregue a tal folhinha. Eu saí primeiro e achei a terra seca. Eu até ajudei a idiota a encontrar vegetação. Ela só precisou pegar a folha e carregar de volta pro velho. Eu só não fiz o trabalho pessoalmente porque o Patrão me designou “outras incumbências”. Deu um trabalho canino pra encontrar o lugar. A árvore só cresce nele e eu tinha que cagar a semente bem ali. Mas é aquele negócio: “manda quem pode e obedece quem tem juízo”.
Aliás, com o Patrão é assim: a gente recebe as ordens, faz as coisas mais loucas e nunca fica sabendo porque ou pra que. Acho que em se tratando Dele, a única coisa que consegui entender é que é parcimonioso. “Nada se perde e nada se cria; tudo se transforma”. E é assim que de sobras se faz mexido e de costelas se faz mulheres.
Mas por que penso nisso agora? Claro que sei por que: é porque não me esqueço daquela pombinha. Exuberante e obtusa; a própria dançarina de axé. Era ela.
Hein? O que? Não abusa pombinho, eu já falei que te pego. Ma vá lá: se você não encher o saco eu deixo você pousar do meu lado. Só não encosta muito que eu sou chegado a outra coisa. Aí já tá bom, pode ficar. Não chega mais não.
Babaca!
A árvore tá feia como sempre. A fruta já tá madura. Muito provavelmente, o gosto ainda deve ser uma bosta. Só espero que não seja igual ao de duzentos anos atrás. Daquela vez eu tive cólicas por quase uma semana inteira. Acho que não foi uma época boa para a árvore. Muito frio; ela se ressente. Em compensação, agora está muito saudável. Cresce forte e se espalha; feito um câncer sem tratamento.
Mas chega de enrolar, né? O que é que viemos fazer aqui? Hã? Hã? O que viemos comer aqui? Hein? Viemos comer a fruta! Então vamos comer. Vamos comer a frutinha amarga. A amaldiçoada frutinha. Vamos lá. Um, dois, três e...
Cráááááááááá! Porcaria azeda. Urgh! Se eu tivesse feito desjejum, agora tava vomitando. Não admira que aqueles imbecis tenham preferido a outra. Por isso se ferraram. Se tivessem comido desta... bem... é provável que estivessem comendo até hoje. Pensando melhor, esse troço é tão ruim que nem posso dizer que o sacrifício compensa. A outra fruta era uma delícia! Saborosa, vistosa, colorida; cheirava feito maçã. Não comas da fruta da árvore e os coitados não tiveram a menor chance. Foi um golpe de mestre. E os três eram ingênuos demais!
Ôôô pombinho! Ô, você mesmo. Vai ali, dá um toque naquele novato; manda ele cagar na cabeça daquele professor de ioga, ali do outro lado. Vai lá, fala pra ele.
Humpf! Eu que estive nos ombros de deuses, reis e defuntos, às vezes as três coisas numa só, agora to aqui conversando com pombo e fazendo piada de mau gosto. Ô decadência! Mas no fim de tudo, o que fica é a piada, a ironia. A da arca, por exemplo, é uma das minhas favoritas. As boas piadas são mesmo as mais sérias. De fato, as melhores são as mal-humoradas. E mau humor eu tenho de sobra.
Vocês vão me dar licença, pois tenho muito a fazer. Vocês estão com a vida ganha; podem desperdiçá-la todinha esperando a redenção ou a morte; o que for mais barato. Eu não posso esperar mais nada.
Foi um prazer. (http://apraca.blogspot.com/)

4.11.04

9 - Seus Olhos

(Alterado em 08/11/2004)
Naquela noite, na praça, ele pôs seus olhos nela e não conseguiu enxergar mais nada. Ela gostou de ver e não quis mais tirar os olhos dele.
Ele foi obrigado a uma atitude drástica: matou-a para pegar seus olhos de volta. (http://apraca.blogspot.com/)

12.10.04

8 - Conto de Fadas

— Isso não vale, Marcela!
Marcela olhou com cara de genuína surpresa — Não vale o que?
— Esse adesivo é de camelô. O meu, a mamãe comprou na loja. Não posso trocar — cruzou os braços e sacudiu a cabeça, indicando claramente que a resposta era definitiva.
— Ué? Mas você não tem a Cindy™ do cavalinho dourado!
— Mas eu quero a da loja.
— A da loja eu não tenho. Você tem que trocar por esta aqui mesmo — desta lógica implacável, a outra não teria como escapar.
— Não vou trocar não. Vou trocar com a Regina, que ela tem um cavalinho dourado de verdade, repetido.
A Regina? Aquela metidinha da 505? — Ela nem fala com você. Ela é chata. Ela não vai trocar o adesivo — já era uma tentativa de evitar que até Lúcia, sua melhor amiga entre as poucas que tinha, se bandeasse para o grupo da popularíssima rainha do turno matutino. Até cerca de metade do ano anterior, Regina não era nada diferente de qualquer outra garota da escola. Da noite para o dia, passou a ter todas amigas que uma aluna do ensino fundamental poderia querer. Não custava que roubasse mais uma e isso Marcela queria impedir de qualquer jeito — Ela não gosta de você.
— Acho que é de você que ela não gosta. Olha a sua sandália — e Marcela olhou imediatamente para os calçados — É tudo sujo; velho. Seu uniforme é todo manchado — e Lúcia quase completou falando sobre a pobreza da outra mas parou antes — A Regina não gosta disso.
Os olhos de Marcela já estavam cheios de água, mas a custo ela ainda evitava as lágrimas — A Regina não gosta de você também. Ela só gostou de você depois que foi na sua piscina; depois que viu sua casa é que ela gostou.
— Eu gosto quando ela vai lá em casa. A mamãe também gosta muito dela — e obviamente não gostava de Marcela na mesma medida. Regina não era rica, mas sua família era muito bem situada. Além disso, a menina tinha cultura, etiqueta, charme e sofisticação mais que surpreendentes para alguém de sua idade. Uma companhia perfeita para Lúcia. Já Marcela...
— Se ela chegar perto de você eu quebro a cara dela.
— Quebra nada. Ela é maior que você. E se você ficar falando essas coisas, a Carina, a Simone e a Cláudia te pegam também. Sem contar o Mauro.
— O Mauro não é amigo dela.
— Mas é namorado da Simone. Se você fizer alguma coisa com a Regina, a Simone pede ao Mauro pra te pegar.
De fato, era difícil atacá-la. Parecia haver sempre um pequeno exército patrulhando os arredores da menina, pronto para defendê-la de qualquer ofensa. Marcela resolveu voltar para o lado mais pessoal — Você não pode ser amiga dela. Eu era sua amiga primeiro. Quando você quebrou o braço fui eu que levei o material todo na sua casa.
—Marcela, você é minha melhor amiga, você sabe. Mas não tem nada a ver, isso. Eu sou sua amiga e sou amiga dela também.
Isso já era humilhação demais. Lúcia ainda era a única coisa que Marcela tinha e Regina não. E agora nem isso! Não havia mais nada em que Marcela pudesse se considerar superior. As lágrimas finalmente desceram — Eu pensei que você fosse minha amiga! Mas não é nada! — largou a outra com seu álbum e as figurinhas no banco da praça e saiu andando rápido por uma trilha.
Lúcia tentou juntar as coisas para ir atrás da amiga, mas as figurinhas caíram no chão — Marcela! Espera aí! Marcela, volta! — mas a outra já tinha se embrenhado pelo bosque que ficava mais adiante.
Nunca mais iria olhar na cara de Lúcia. Na verdade, queria que Lúcia morresse. De câncer, se possível. No cérebro, como havia morrido uma de suas primas dois anos atrás. Não tinha uma idéia exata do que era morrer de câncer no cérebro, mas a forma sombria como todos da família se referiam à doença indicava que era um jeito bem horroroso de ir embora. Então era isso que queria para Lúcia, Regina, as meninas, todas as turmas de 5ª série; a escola toda, na verdade.
A menina caminhava tão absorta em sua raiva que não percebeu uma vespa que a acompanhava enquanto seguia a trilha. A vespa pousou em suas costas sem que percebesse e andou sobre sua blusa até encontrar um ponto de pele exposta. Lambeu a pele da garota, o que a fez coçar-se no lugar. A vespa pulou rápido para o ar antes que os dedos a atingissem.
Nesse meio tempo, Lúcia já havia reunido as coisas e, correndo, conseguiu alcançar a outra — Pára, Marcela. Vamos conversar.
— Já conversamos tudo. Não quero mais saber.
— Que vacilo, Marcela! Deixa de ser besta — segurou a amiga pelo braço.
— Quer apanhar também? — e falava sério. Poderia muito bem arrancar a mão de Lúcia, naquele instante.
— Não. Só quero falar com você.
— Já falou! Já falou tudo; não enche... AAAAAAAI!
A vespa! Havia retornado ao ponto e cravara o ferrão profundamente na menina.
— Ela me mordeu! — gritou e seu choro aumentou com a dor.
— Deixa eu ver — o calombo era enorme e muito vermelho; pequenas saliências se irradiavam do ponto central e percorriam a pele em várias direções. Do centro, vazava um líquido meio viscoso. Era um ferimento de assustar — Caraca! Tá muito feio. Vem, Marcela; a gente tem que ir embora.
— Ta doendo muito. Eu não consigo andar direito — de fato, cada passada parecia se refletir na ferida. Marcela sentia até sua pulsação no entorno da picada — Me ajuda, Lúcia. Me ajuda. Tô com medo!
— Vem, Marcela. A gente tem que chamar alguém.
— Não consigo — aos poucos a dor ia passando e em seu lugar foi surgindo um certo entorpecimento. Marcela experimentou uma sonolência muito forte, mas que não chegava nunca à inconsciência. As coisas começaram a ganhar um certo brilho, as árvores estavam crescendo e se afastado, o chão ficou macio e depois desapareceu por completo — Lúcia, eu tô ficando cega. Não consigo andar — falava com a voz mole e fraca, como se falasse durante o sono. Agachou-se e sentou no chão, não conseguindo mais se levantar apesar dos chamados de Lúcia.
— Eu vou chamar o guarda, Marcela, tá bem? Fica aqui que eu já volto — e saiu correndo. Marcela não conseguiu responder. Apenas ficou olhando a amiga se afastar até sumir no meio da confusão que via nas coisas. A vespa retornou e voava ao redor de sua cabeça, mas parecia cada vez menos com uma vespa. Aliás não era mais uma vespa de jeito nenhum. Tonta como estava, Marcela não distinguia bem o que era, mas tinha certeza de que não era uma vespa.
O guarda veio e Marcela foi levada a um hospital enquanto seus pais eram avisados. A reação alérgica à picada era muito forte. Marcela tinha febre e delirava apesar da medicação potente com que estava sendo tratada. Devido à sua condição clínica, ela teve que passar a noite no hospital em tratamento intensivo. Para alívio de sua família, apesar do estado bem grave, pelo menos seu quadro físico era estável, sem taquicardia nem elevação da pressão sanguínea.
Às três e quinze da manhã, a enfermeira encarregada havia terminado mais uma de suas rondas. Tudo estava tão tranqüilo quanto pode estar em uma UTI. Podia aproveitar os próximos vinte minutos para um cochilo. Se alguém passasse mal naquele intervalo, era bem-feito. Havia escolhido a hora errada.
Marcela dormia um sono agitado. Sonhava com coisas estranhas, lugares que não conhecia e pessoas que nunca havia visto. Às vezes acordava, mas parecia não haver diferença entre estar desperta ou dormindo. Numa das vezes em que parecia estar sonhando, ela viu de novo a vespa. Só que desta vez haviam muitas outras acompanhando seu vôo. Finalmente, Marcela conseguiu observar o inseto com atenção, pois este havia se aproximado bem de seus olhos. O brilho ao redor do bicho atrapalhava um pouco a visão, entretanto era possível observar claramente a figura. O corpinho era gracioso, com uma cintura finíssima e perninhas de coxa grossa. O rosto era delicado e os olhos brilhavam como um arco-íris. Marcela sabia muito bem o que era aquilo. Já vira aquela figura em um milhão de estampas, álbuns de colorir, filmes, figurinhas autocolantes e livros infantis.
Era uma fada.
Há algum tempo, os pais de Marcela, seguindo os melhores ditames do que pensavam ser uma boa educação, vinham desestimulando suas experiências com coisas imaginárias. Não que reprimissem seus devaneios; apenas procuravam não reagir a eles. Evitavam que qualquer conversa se estendesse nessa direção e sempre tentavam introduzir algum elemento racional no meio do assunto, se ela insistisse. Para a menina, era muito contraditório que os pais, sendo religiosos, pudessem acreditar em um Deus que ninguém pode ver e em seu livro de histórias antigas, ao mesmo tempo em que achavam uma infantilidade acreditar em monstros debaixo da cama, mulheres vestidas de branco no banheiro da escola ou fadas e duendes nos bosques. Entretanto Marcela adorava os pais e percebia que não estavam preparados para aquele tipo de questionamento. Não queria entrar em conflito com eles e passou a evitar qualquer referência ao assunto quando estavam juntos. Na concepção deles, isso era ótimo: sinalizava o amadurecimento da filha. E na verdade, pela falta de estímulo positivo, aos poucos a fantasia da menina estava realmente ficando menos ativa e ela já começava a permitir que as questões mundanas sufocassem o seu universo interior. Mas no fundo, naquele canto do coração onde a criança brinca de se esconder do adulto, ainda vivia em Marcela aquela crença quase ingênua da existência de mais coisas no mundo do que os olhos podem ver. E naquele momento, enquanto olhava aquela bonequinha flutuante diante de si, Marcela ouvia o grito de triunfo de sua própria imaginação: era tudo verdade! As maravilhas que conhecia desde que era muito mais nova (e, infelizmente, os pesadelos também); tudo era verdade. A prova estava ali, a poucos centímetros de seu rosto.
A fada voava com leveza quase impossível e dava pequenas cambalhotas no ar. Marcela estendeu a mão e a criaturinha pousou em seu dorso e olhou a menina bem de frente — Oi, Marcela.
Falava! Ela falava! Era maravilhoso demais para acreditar.
— Oi — e Marcela não disse mais nada. Que besta! Bem ali estava a coisa mais fantástica que existia e ela só sabia dizer “oi”. Ninguém merece! Ser besta assim, ninguém merece.
— Finalmente consegui te encontrar!
— É? — ai que vontade de morrer. Que estúpida!
— É sim. Faz tempo que estou procurando.
— Me procurando? — uma fada procurando por ela? Era sensacional demais!
— Sim, querida. E você não sabe como foi difícil.
— Deve ser porque o hospital é longe da praça — finalmente sua anta. Conseguiu dizer alguma coisa que preste.
— Não, querida, não é disso que estou falando. Agora que você tem o meu beijo, eu sei onde você está em qualquer lugar da Terra. Eu quis dizer que foi difícil encontrar alguém para receber o beijo que dei.
Beijo? Não se lembrava de beijo nenhum, ainda mais de fada — Você me beijou? Quando?
— Hoje, perto da minha casa.
— Eu passei perto da sua casa?
— Passou sim. Você passou correndo e depois veio sua amiga.
— Mas eu não senti esse beijo.
— Sentiu sim, querida. Você sentiu dor e depois ficou com sono. Depois veio para cá.
— Aquilo foi beijo? Não foi uma picada de vespa?
A fada assentiu com a cabeça — Meu beijo.
— Beijo esquisito. Dói.
— Dói sim. Mas você não estava acostumada. Se deixar eu te beijar novamente, vai achar muito gostoso.
— Não vai doer?
— Vai sim. Eu não disse que não ia doer. Eu disse que seria gostoso.
— Mas como pode doer e ser gostoso?
A fadinha riu, jogando a cabeça para trás — Querida, ainda tem tanta coisa para você descobrir — olhou para a mão da menina, onde estava pousada e depois olhou de novo para o rosto — Crescer é descobrir. Por isso é que é gostoso crescer. Você mal passou dos dez anos de idade e já está doidinha para ser gente grande. Não porque quer ser adulta: o que você quer é tornar-se adulta. E isso dói. Mas acho que até aí você já sabe, não é?
Marcela sentiu um certo assombro por ouvir traduzido em palavras simples, um sentimento que refletia tão bem o que se passava dentro de si. Ou talvez fosse só a febre. Quem sabe?
A fadinha voou para o alto e olhou ao redor. A enfermeira estava deitada no último leito da UTI e roncava um pouco. O outro plantonista estava sentado à mesa na entrada da unidade e assistia a algum programa na TV. O único outro ruído alem disso vinha dos monitores ligados aos pacientes. A menina percebeu que havia uma fada voando sobre cada um deles. De vez em quando, uma descia, caminhava um pouco sobre o paciente que observava e depois voava de novo.
A fadinha retornou para sua mão — Querida, nós temos que ir embora. Seria perigoso manter as outras pessoas inconscientes por mais tempo. Antes de ir, quero te perguntar uma coisa: o que você sabe sobre as fadas?
Pergunta difícil — Sei lá. Vivem nas florestas..., voam..., comem flores, realizam desejos. O que mais?
— Hi, hi, hi, hi, hi! — a risada era fininha e estridente — Realizam desejos! Essa é boa. Hi, hi, hi, hi!
—Tá rindo de que? As histórias contam que as fadas realizam desejos. Especialmente se forem fadas-madrinhas.
— Fadas-madrinhas? — a fadinha olhou para ela com a melhor cara interrogativa que conseguia fazer — Hum... não sei o que isso quer dizer. Mas não importa: esqueça o que você pensa sobre as fadas. O que me levou a procurar você é o fato de que preciso de sua ajuda.
Aquilo era estranho. Marcela não se lembrava de nada parecido nos contos que havia lido. As fadas eram sempre partes ativas e insondáveis como forças da natureza, intervindo quando e como queriam na vida das pessoas. Não se lembrava de nenhuma fada que pedisse ajuda para alguma coisa. Mas apesar de levemente decepcionada por entender que não ia ganhar nenhum presente maravilhoso, ela começou a achar excitante a perspectiva de que pudesse fazer algo de que aquela criatura mágica pudesse precisar.
— Eu vou te ajudar como?
— Quero que você seja minha filha.
— Filha?! Não tira onda da minha cara.
— Eu quero que você seja minha filha. Não tenho muito mais tempo para encontrar quem possa. Achar você já foi um golpe de sorte e tive que me apressar para que a chance não fosse embora.
— Mas como é isso? Eu já tenho mãe.
— E continuará tendo, querida. Só que vai ter mais uma.
— Eu vou ser uma fada?
— Um dia, querida. Daqui a muitos anos, depois que você for vovozinha e tiver seus netinhos já crescidos. Depois disso seus olhos vão se fechar para sempre. Mas você vai nascer de novo de um jeito diferente. Você vai ser uma fada.
— Mas isso vai demorar muito! Não posso ser fada agora?
— Poderia sim. Mas que tipo de fada você seria? Eu disse que há muita coisa ainda para você viver e aprender.
— Eu posso aprender tudo já sendo uma fada, ora.
— Infelizmente, muita coisa você não poderia mais aprender. Conviver com as pessoas, por exemplo.
Marcela sabia que era verdade. Se ela fosse uma fada, só poderia ter contato com poucas pessoas em quem pudesse confiar. Se algum estranho a visse, ela ia acabar sendo cobaia em algum laboratório militar secreto, desses que se vê em filmes.
— A mamãe não vai gostar.
— A mamãe não precisa saber. Além disso, quando acontecer a transformação, sua mamãe já não estará mais aqui.
A menina pensou na prima morta e assustou-se. De repente as coisas ganharam um tom muito sombrio — Não quero que a mamãe vá embora. Ela tem que ficar.
A fada suspirou e fez uma cara triste — Ninguém deveria ter que partir. Eu também me lembro de minhas mães: a mãe-gente e a mãe-fada. Eu amava as duas. Mas o tempo veio e elas tiveram que ir embora. Fiquei muito triste mas esse era o destino delas. Também será o meu e de tudo que caminha na Terra.
— Você também teve uma mãe-gente!
— Sim. Toda fada tem uma — deu um pulo e voou até perto do rosto da menina — Mas meu tempo está acabando. Preciso saber: você quer ser minha filha?
— Não sei. Acho que tenho medo.
A fada sorriu sem graça — Eu entendo você, Marcela. Desculpe por fazer você passar por isso. Eu preciso ir agora porque ainda tenho que visitar uma outra menina que pode ser minha filha.
— Você não vai ficar chateada?
— Não, querida. Só estou com um pouco de pressa — já chamando as outras para partir.
— Espera! Quem é a outra menina?
De costas para Marcela, a fadinha sorriu maliciosa — O nome dela é Regina. Ela vai à praça, de vez em quando com aquela sua amiga Lúcia.
Regina? Virar fada?! Isso é que não! Nunquinha!
— Eu quero ser sua filha!
— Mas você estava com medo. Minha filha não pode ter medo de mim.
— Eu não estou mais com medo. Eu quero ser sua filha.
— Entenda, Marcela: se você vai ser minha filha, terá que confiar em mim e aceitar o que vou lhe dar. Você tem que amar o que vou fazer com você. Você está preparada?
Não estava, é óbvio. Mas estava menos preparada ainda para ver a outra menina voando entre as árvores do bosque — A mamãe não ficará zangada?
— Já disse: ela não vai saber. Na verdade, nem você vai se lembrar do que conversamos. É melhor assim para não interferir na sua vida.
Marcela sentiu o ânimo diminuindo — Eu nem vou saber que sou uma fada? Isso não é legal.
— Você vai saber sim. Mas só quando se transformar. Enquanto for gente, você sabe o que deve saber como gente. Depois é que vem a fada.
Marcela hesitou. Olhou os pacientes nos outros leitos — Queria perguntar o que a mamãe acha.
— Não há tempo, querida. Preciso de sua resposta agora — e disse bem devagar — ou então devo procurar a Regina. O que vai ser?
A resposta veio em um quase sussurro — Eu quero.
— Ótimo, Marcela. Eu vi que você era especial na primeira vez que nos encontramos.
A menina não recebeu a notícia com muito entusiasmo. A fada prosseguiu — Agora preciso que você se prepare. Tire sua camisola, deite-se de lado e dobre as pernas até tocar o peito com os joelhos. Depois abrace as pernas.
Nua, Marcela se colocou em perfeita posição fetal. As outras fadas vieram com rapidez. Se posicionaram ao longo da coluna vertebral exposta. Em seguida, a um só tempo, cravaram seus ferrões bem em sua medula. Ao contrário do que podia esperar, Marcela sentiu dor, mas não era insuportável, apenas incômoda. Pouco mais que beliscões e a coisa todas não durou mais que alguns segundos. Depois, novamente veio a sensação de entorpecimento. Ela nem se deu conta de que não conseguia mexer mais um músculo sequer, do pescoço para baixo. As fadas retornaram para suas posições junto aos outros leitos. A fada de Marcela foi até sua nuca e procurou um ponto certo na base do crânio. — Marcela? Marcela, está me ouvindo?
A menina acenou que sim.
— Marcela, me escute com atenção: agora é o momento em que você precisa me amar, querida. Se não for assim, seu corpo vai brigar o que vou te oferecer.
— Você vai me dar um presente? — a voz era lenta e pastosa, a boca se movia com dificuldade — Você vai me dar um desejo; é minha fada-madrinha.
— Um presente sim, criança, mas não um desejo. Seja forte, querida — o ovipositor foi colocado em posição e começou a atravessar a pele da menina. Marcela começou a chorar baixinho.
— Agüente firme, querida. Não vai demorar.
O tubo, fino como um fio de cabelo, foi empurrado até o espaço entre o cérebro e o cerebelo de Marcela sem afetar nenhuma estrutura sensível. A fada, firmemente agarrada à pele da menina, tremia o corpo com o esforço que fazia — Agora, Marcela, você tem que aceitar o que vou te dar. Você aceita ser minha filha?
Que alternativa havia? Deixar que Regina fosse? Agora que fora tão longe?
— Aceito.
— Então receba seu presente, minha filha adorada — a fada fez um esforço final e o ovo passou para o pequeno espaço preparado para recebê-lo. Imediatamente começou a ligar-se às estruturas nervosas circundantes.
A fada apertava o pescoço de Marcela com toda força que seus pequenos braços podiam fazer — Minha filha! Minha filha! Como eu te amo tanto! Minha filhinha! Eu te adoro!
As outras fadas vieram e a seguraram pelo corpo e pelos braços — Não! Se afastem, eu estou ordenando! Eu quero ficar com minha filha! Larguem! Larguem! — indiferentes, as outras a puxavam para longe da menina, fazendo com que o ovipositor saísse pelo buraco que havia cavado — Me deixem! Eu quero ficar com minha filha. Vão embora. Vão embora — gritava chorando enquanto esperneava e tentava resistir à força das outras — Marcela! Minha filha, não se esqueça de mim! Não se esqueça! Desculpe minha filha, mas não posso ficar agora com você. Quando você estiver pronta, eu vou voltar; prometo, filha — as outras a continham totalmente agora e saíram voando carregando ela embora.
A enfermeira acordou e espantou-se quando viu que havia passado do horário. Levantou-se apressada e tomou outro susto quando viu Marcela nua e naquela posição. Correu para verificar e ficou mais tranqüila quando constatou que a febre da garota havia cedido. Os monitores não indicavam nenhuma perturbação e a garota ressonava profundamente. Antes que alguém visse e as perguntas começassem, a enfermeira vestiu a camisola de Marcela e a colocou em posição normal no leito. Ela não chegou a acordar, mas cooperou direitinho com a farsa, para alívio da enfermeira.
No dia seguinte, Marcela já estava plenamente recuperada. O diagnóstico ficou sendo mesmo de uma forte reação alérgica a uma picada de inseto. Ela ainda ficou em casa, de repouso, por mais dois dias. Depois, quando os pais constataram que seu ânimo era dos melhores, resolveram que já poderia voltar para as aulas.
Para Marcela seria muito bom. Estava louca para ver as pessoas e conversar. Não havia mais aquela sensação de ser inadequada, diferente, de não ter amigos, de estar isolada; nada disso! O que sentia era uma grande expectativa pelo encontro com os colegas. Estava ansiosa para falar com Lúcia também. Afinal, havia tratado a amiga de forma muito deselegante. Ainda mais que fora Lúcia quem havia ajudado naquele incidente com a vespa. Se a amiga não estivesse perto, Marcela poderia até ter morrido, o médico dissera. Precisava se desculpar e agradecê-la.
Quando chegou ao pátio da escola procurou por Lúcia nos lugares onde costumavam se encontrar. Nem sinal. Pouco antes da chamada para o início da aula, finalmente viu a amiga. Com Regina. Marcela sorriu: quem sabe não era hora de serem amigas também? Rumou na direção das duas, mas quando estava bem próxima foi interceptada por Simone. — Onde você pensa que vai?
Marcela olhou a menina de alto abaixo antes de responder — Estou indo cuidar de minha vida. E você?
— Mas ta muito abusada! Eu falei pras meninas que não podiam te dar confiança.
— Melhor falar com elas de novo, então. Agora me dá licença — contornou a garota para prosseguir seu caminho. Mas Simone não ia deixar assim e jogou seu corpo contra Marcela. Com uma esquiva rapidíssima, ela evitou o contato da outra garota que não conseguiu frear o movimento e caiu no chão.
— Tome mais cuidado. Vai acabar se machucando — zombou.
Não muito longe dali, Mauro acompanhava a cena e não ficou contente com o desfecho inesperado. Veio tomar satisfações — O que você fez com ela? Fala logo!
— Eu saí da frente dela. Ah! E também disse para que ela tomasse mais cuidado.
— De repente ficou folgada, né? Acho que você ta querendo uns tapas.
— Taí. Até que eu apreciaria a experiência. Mas teria que ser de alguém que fosse capaz de me dar uns tapas. Que soubesse me bater do jeito que eu gosto. Não acho que seja seu caso.
— Ta querendo descobrir?
— Agora!
A molecada juntou em volta para atiçar. Alguns, principalmente as garotas, tentaram argumentar que era covardia um menino bater em uma menina. Mas a maioria ali realmente não se importava. A última coisa de que se lembrariam naquele momento eram as convenções sociais idiotas. O que queriam ver era briga. De início, Marcela já conseguiu acertar um tapa bem de frente na cara do menino. Ele tentou socá-la, mas ela esquivou-se. Perdia na força, mas ganhava na agilidade. Entretanto, ele conseguiu agarrá-la pelos cabelos e a puxou com violência para baixo, fazendo com que tombasse no chão. Já se preparava para chutá-la, mas não foi rápido o suficiente: Marcela fugiu do chute e puxou para frente, com toda força, o calcanhar do menino que estava apoiado no chão. Ele tombou de costas e a cabeça fez um barulho forte quando bateu no cimento. Começou a chorar. Ela levantou-se e chutou-lhe as bolas com toda força. Ele se encolheu virando o corpo para o lado. Seu choro fez nascer um grito quase em uníssono entre os garotos: — Veado! Veado! — Era o fim.
Marcela, com o rosto vermelho e os cabelos desgrenhados era a própria imagem do triunfo. Ia levar tempo para que alguém se aventurasse ao desafio novamente. Foi até onde estavam as meninas com quem queria falar. Lúcia estava com os olhos arregalados e respirava depressa, quase ofegante. Regina apenas olhava a cena e sorria. Marcela sorriu também. Regina apontou para a calça de Marcela. Havia um rasgo na lateral. As duas começaram a rir. Marcela chegou perto — Depois eu queria falar com você.
— Eu também quero.
— Agora, se não se importa, eu preciso falar com a Lúcia.
— É toda sua.
Marcela pegou Lúcia pela mão saiu andando majestosa no meio da roda de crianças que se abria.
Com toda deferência devida a uma rainha. (http://apraca.blogspot.com/)

18.9.04

7 - Amores

Seis homens sustentavam o caixão pelas alças. À frente e à direita, ele ia pisando com suavidade, escolhendo o caminho com cuidado, como se algum abalo pudesse perturbar o sono eterno do irmão falecido. O sol estava alto e o peso era grande, pois o outro havia sido forte como ele. Mas o calor pouco o incomodava. A dor que estava sentindo não deixava espaço para outras percepções. Havia o irmão, havia o luto e nada mais. Eram gêmeos idênticos, mas não poderiam ter sido mais diferentes. Isso era uma coisa engraçada, quase uma piada entre eles. Por causa dos poucos minutos de diferença entre seus nascimentos, uma assimetria fora criada. Havia um primogênito e um caçula e a passagem do tempo só fez acentuar a divergência. Entretanto, aquilo era motivo para aproximar ainda mais os dois: o “mais velho” sempre comprava as brigas do irmão “mais novo” desde o tempo das provocações da molecada da outra rua, quando ainda estavam na escola primária. E também quando o pequeno não conseguia entender a matéria do colégio e tinha dificuldades com o dever de casa, o outro abandonava o que estivesse fazendo, e vinha ajudá-lo; estudavam juntos até que o caçula estivesse seguro o suficiente de ter entendido tudo.
Deus! Como seria possível viver sem o irmão? Sem a conversa animada e meio inocente do outro? O que faria quando fosse até a mesa de bilhar e visse o taco marcado com as suas iniciais? Como seria a chopada de sexta-feira sem as piadas bobas do pequeno? Nunca mais estar perto de seu melhor amigo; como seria? Como poderia evitar sentir-se inútil agora que não tinha mais o irmão para proteger? Até nas paqueras sempre dera força para que se aproximasse das mulheres. O garoto era tímido e inseguro demais. Apesar de ter um bom papo, era comum que se atrapalhasse todo quando precisava falar com uma mulher que realmente o interessava. Ah! Mas quem pode imaginar o que é o destino? A mulher que seria a esposa do menino fora uma das poucas de quem se aproximara sem ajuda do mais velho. Quase riu quando pensou isso, mesmo com o peso da urna nos ombros e o calor aumentando dentro do terno. Naquela época havia dito ao irmão que não poderia mesmo tê-la apresentado: gostava muito dele e não ia enfiá-lo nessas roubadas de casamento e tal. E o lugar onde os dois se conheceram só podia mesmo ser a praça que ficava perto de onde trabalhavam. Todo mundo sabia que ali só aconteciam coisas estranhas; ganhar aquela moça sozinho era mais uma esquisitice que só poderia ter acontecido lá mesmo.
Finalmente chegaram à borda da cova. Os funcionários do cemitério estavam esperando e dois deles passaram os ganchos de ferro pelas alças da urna para descê-la ao fundo. Ele apanhou um dos ganchos e os ajudou a baixar. Era a última vez que ajudava o irmão. Notou que os outros tremiam com o peso que sustentavam. Antes havia seis carregando o esquife; agora, apenas três. Ele não tremia. Era forte e atlético e mesmo aquele peso considerável não chegava a cansá-lo, o que tornava ainda mais estúpida a morte do irmão. Perdidos, os médicos não sabiam como diagnosticar a estranha condição que o vitimara: crise hipertensiva, parada cardíaca e falência de órgãos. Ora, ele e o caçula estavam com apenas trinta e oito anos, levavam uma vida mais ou menos saudável, faziam exercícios em um nível pouco inferior ao de um profissional. O que dera errado, então? Na verdade, ele tinha uma idéia do que poderia ter sido: a cunhada sofrera um aborto espontâneo de uma gravidez que o casal havia desejado muito. Mas será que só aquilo bastava para explicar o caos que se instalara em seu organismo? Talvez. Sentimentos muito fortes podem se manifestar no corpo justamente na forma de perturbações anatômicas ou fisiológicas.
Lembrou-se de como tinha sido difícil chegar àquela gravidez. Uma verdadeira peregrinação que durou meses: de clínica em clínica; médico após médico, especialistas, terapeutas, tratamentos, exames; qualquer coisa que pudesse ajudar. Até o caipira que vendia raízes na calçada da praça eles haviam procurado e prepararam a garrafada que ele ensinara. Coincidência ou não, quando terminaram de beber a garrafada, os exames deram positivo. E quantos planos haviam feito, e os móveis que haviam comprado, fraldas que foram estocadas. Nossa! Sonhos viram pó num piscar de olhos. Talvez fosse isso mesmo, o irmão não havia agüentado o ruir de seu castelo de nuvens.
A cunhada, próxima da sepultura, observava as coisas a uma distancia de vários miligramas de tranqüilizantes. Era só um bagaço da mulher linda e exuberante que fora até o aborto. Ainda assim, era uma pessoa de fibra: mesmo alquebrada pelas duas perdas tão próximas entre si, ela ainda tinha forças para ir até ali e dar o adeus definitivo ao seu amor. Tinha a expressão um tanto vaga devido aos remédios, mas o rosto estava crispado de angústia e as lágrimas desciam abundantes pela face, sendo colhidas pelo lencinho que mantinha sobre a boca e o nariz.
A urna agora repousava no fundo da sepultura. Um amigo da família fez um discurso emocionado sobre como a ausência do rapaz seria sentida por todos. Depois, cada pessoa se aproximou para jogar flores. Ele não levara nenhuma. Não era necessário, pois sabia o que o irmão pensava daquelas cerimônias. O garoto jamais o teria perdoado se o visse fazendo aquilo. Afastou-se da cova, reunindo-se aos parentes mais próximos. A viúva chorava baixinho enquanto alguns tentavam lhe dirigir palavras de conforto.
Os coveiros se aproximaram do túmulo e começaram a jogar terra sobre o ataúde. Isso pareceu despertar a mulher de seu entorpecimento. De repente, ela explodiu em um choro forte e convulsivo. Como se fraquejasse, ela se desequilibrou e para que não caísse, ele a segurou pela mão, a mesma que segurava o lenço ensopado de lágrimas. Ela o agarrou forte, virou-se lentamente e enterrou o rosto em seu peito deixando o pranto correr. A mão dada ao amigo apertava o lenço com tanta força, que parte da umidade retida escorreu em pequenos filetes. Ele a abraçou e seus próprios olhos começaram a marejar. Não teria palavras para definir aquela perda: era muito mais que um amigo, mais que um irmão. Era como se visse a si próprio, morto, sendo coberto pela terra que as pás iam derramando.
Sem aviso, seu pênis inchou de forma rápida e descontrolada, até mesmo dolorosa. A cabeça passou pelo elástico da cueca e ele percebeu que sua rigidez seria bem saliente no tecido fino da calça. Não podia acreditar naquilo: ele e a cunhada chorando juntos a morte de seu irmão e, de repente, o pau ficava rijo como uma barra de ferro. Com certeza ela iria notar. E de fato, ela se afastou quase com violência quando a ereção dele a tocou num ponto próximo ao umbigo; impossível de ser ignorada mesmo sendo por sobre o tecido de seu vestido de luto. Ele imaginou o que poderia ver nos olhos dela quando a encarasse: surpresa, desapontamento e uma certa indignação agressiva que, imaginava, facilmente seria transformada em raiva e talvez histeria. Outras pessoas perceberam o movimento brusco que ela fizera e ele pensou ver algo como se fosse uma onda percorrendo o público e imaginou olhos ávidos de escândalo se voltando para a cena mesmo sem entender o que acontecia; apenas pressentindo a possibilidade de saborear alguma coisa bem asquerosa. Ele percebeu murmúrios entre os mais próximos e quase sentia na pele a ponta dos dedos indicadores que começavam a ser estendidos em sua direção. Viu como uns cutucavam os outros com as mãos ou os cotovelos e ouviu sussurros se espalhando a sua volta como um enxame de abelhas zumbindo ameaças a um intruso na colméia. Sentiu que seu rosto ficava ruborizado. Um vexame desses bem no funeral do irmão amado!
Ele percorreu os arredores com olhar, buscando compreensão; querendo descobrir em alguém um brilho de solidariedade. Queria que os outros percebessem como aquilo era fora de propósito; que ele era o mais indignado com a situação. E foi quando seu olhar cruzou com o dela. Mas não era raiva e nem indignação o que encontrou. O que havia estampado naquele rosto sofrido era pavor; um medo grave e escuro como as profundezas de um oceano. O lenço havia caído no chão e as mãos tremiam, apertadas uma na outra. Parecia faltar-lhe ar.
Ele não teve tempo de lhe dizer qualquer coisa porque agora já não a enxergava como a viúva do irmão, mas como uma fêmea desejável igual a nenhuma outra. Suas narinas farejaram o cheiro delicioso de sua secreção vaginal, mesmo sob a nuvem de perfume, xampu e desodorante que ela emanava. Só não avançou sobre si porque as pernas já estavam falhando. Caiu sentado e tentou arrastar-se na direção dela, fazendo débeis movimentos com os braços. Alguém tentou levantá-lo, mas ele não tinha condições de ficar em pé. Começou a arfar.
A mulher começou a gritar. Apontava para ele, depois levava a mão à boca, tornava a apontá-lo; tentava estender a mão para ajudá-lo e em seguida a recolhia. Estava totalmente apavorada e confusa. Para os ouvidos dele, seus gritos eram os gemidos que ela soltaria quando a estivesse cavalgando, enterrado nela até quase o útero. O pênis batia na calça no mesmo acelerado ritmo do coração. Ele estava zonzo com a pressão que o sangue fazia em seu cérebro, mas isso não o impedia de imaginar a mulher deitada à sua frente. Sua mão, crispada sobre a grama onde estava deitado, na verdade segurava aqueles cabelos rebeldes como se fossem rédeas de montaria brava. Potra! Potra!
Ejaculou o maior esguicho de esperma que já vira qualquer homem produzir, com o pau quase varando a roupa molhada. A seguir, entrou em convulsão. Algumas pessoas já se mobilizavam para conseguir socorro enquanto ele já não podia mais entender o que acontecia à sua volta. Por um breve momento, quando seus olhos e os da cunhada se cruzaram, ele soube o que havia matado seu irmão. Ele soube quando a viu. Mas agora, preso no aperto de suas coxas, não sabia mais nada. (http://apraca.blogspot.com/)

10.9.04

6 - Um, Dois, Três

Não é.
Não é.
Não é.
Não é.
É.
O Primeiro é. O Primeiro é a totalidade, a unicidade. O Primeiro é a plenitude. A coisa completa. É o começo e o fim sem início ou término. O Primeiro é absoluto. É. É. É. É. É. É desejo. Vontade.
O Segundo é. O Segundo é confirmação. É concordância, aprovação, anuência. É apoio. O Segundo é reconhecimento. O Primeiro e o Segundo é absoluto. É. É. É. É. É. É desejo. Vontade.
O Terceiro é. O Terceiro é certeza. Convicção. O Terceiro é estabilidade. É comprovação. O Terceiro é definitivo. É inabalável. O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é absoluto. É. É. É. É. É. É desejo. Vontade.
O Quarto não é. O Quarto pode ser. Talvez. O Quarto é.... dúvida. O Quarto é questionamento. É hesitação. Desconhecimento. O Quarto é nada. É o nada. Não é. O Primeiro, o Segundo, o Terceiro e o Quarto não é absoluto.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é estranhamento. O Quarto é desconfiança.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é arrependimento. O Quarto é expectativa.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é afastamento. O Quarto é aproximação.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é comando. O Quarto é surpresa.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é força. O Quarto é oposição.
O Primeiro, o Segundo e o Terceiro é Único. O Quarto é queda.
O Único é tristeza. O Quarto é tristeza.
O Único é cansaço. O Quarto é impotência.
O Único é busca. O Quarto é planejamento.
O Único é descanso. O Quarto é vingança.
E foi com este último pensamento que o mendigo acordou sob um dos bancos da praça. Bateu com a cabeça na beira do banco. - Puta que pariu – gritou com vontade. Um casal de namorados que ia passando olhou para ele. Ele se virou de costas e soltou um peido. O casal se afastou enojado. - Vão pra casa do – ele começou a dizer, mas a língua se enrolou e não pode completar a frase.
Coçou a cabeça. Os piolhos se afastaram das unhas grossas e sujas. Havia algo para se lembrar, referente àquele sonho, mas não conseguia atinar o que era. Pegou a garrafa de cachaça. Vazia.
Vontade. A garrafa agora estava cheia. Bebeu uma grande golada. E viu que era bom. Quer dizer, não era saudável. Mas era gostoso pra diabo! (http://apraca.blogspot.com/)

30.8.04

5 - Tiras

A mulher acordou quando ouviu o barulho do liquidificador. Juliano já estava se preparando para sair. A mulher não sabia como ele encontrava disposição para acordar tão cedo, madrugada quase, depois de passar praticamente a noite toda estudando para o concurso. Antes de sair, ele ainda iria ao banheiro, depois voltaria ao quarto para perfumar-se (e empestear tudo com o cheiro forte), calçar os sapatos e verificar a carteira. Depois apanharia a arma na gaveta do ar-condicionado portátil que ficava próximo à cama. Apanharia um pente de balas extra, verificaria se estava carregado e depois ocultaria tudo nos lugares apropriados junto ao corpo. Ela quase poderia acertar o relógio pelo momento em que ele fazia cada coisa. Isso se estivesse acordada o suficiente. Mas ela não conseguia acordar totalmente naquele momento. Apenas ficava dormitando entre a meia lucidez e um sono leve e confortável, embalada pelos ruídos familiares vindos da cozinha. A gravidez estava só começando e ela ainda não precisava acordar a cada hora para urinar, como suas amigas mais velhas lhe garantiram que faria mais tarde. E os barulhos que ele ia fazendo lhe davam uma sensação de segurança, da qual sentia muita falta quando ele era escalado para alguma operação e não passava a noite em casa. Juliano terminou de aprontar-se e lhe deu o beijo de todas as manhãs. Pegou as apostilas da matéria do concurso e saiu. Ela se despediu e quando ele fechou a porta ela riu e disse para si própria “amém”.
Juliano apanhou o carro na garagem, alugada do vizinho, e rumou para a delegacia. Completando o ritual cotidiano, foi pensando no dia em que não mais tivesse que alugar casa e garagem. Queria uma casa de verdade; não uma dessas caixinhas de pombo que chamam de apartamento. A mulher resistia à idéia: casas dão mais trabalho para limpar. Ele replicava dizendo que em uma casa não pagariam condomínio. Depois apelava e dizia querer um bom quintal para a filha (seria menina, tinha certeza) poder correr e brincar à vontade. O que ele não dizia, para não exterminar suas chances de realizar um sonho, era que, além do quintal, a coisa da qual sentia mesmo falta era de uma boa garagem. Seu conceito de garagem era o que via nos enlatados americanos na TV: quase um universo, com uma constelação de ferramentas milimetricamente posicionadas sobre marcações pintadas na parede. Equipamentos de todos os tipos, as melhores peças, compressor de ar para pintura; o diabo. Isso, pra não falar do carro novo!
Um sonho difícil. Mesmo sem a resistência da esposa, restava o problema da grana: custaria os olhos da cara. Dinheiro demais para um policial. Claro: um que tentava ser tão honesto quanto possível. Se estivesse disposto a fazer algumas “concessões”, não seria tão difícil assim. O Neto já havia dado o serviço: o bando do Boquinha o queria solto. O esquema já estava quase no ponto. Faltava só escolher o dia certo. E naquele mês, o melhor momento coincidia com o turno da noite de Juliano. Dinheiro mole. Muita grana. Dava pra pagar uma meia garagem, talvez mais. E Juliano pensara na filha (seria menina!), na esposa e na garagem. A cabeça deu voltas. Mas sempre retornava ao mesmo lugar: analista judiciário. Dinheiro limpo. Trabalho tranqüilo, praticamente sem risco. Sem incursões aos buracos quentes da cidade, sem bandido para escoltar, sem ter que dar cobertura aos colegas corruptos; uma tranqüilidade. No fundo, não era uma questão de moral, princípios ou honestidade; “o queu que, é susse”, já dizia Tim Maia.
Juliano dissera não. O Neto insistira, mas ele descartara. Não queria se envolver naquela parada. Mandara os caras escolherem qualquer outro dia; estava fora. O Neto falara que ia dar merda, que eles teriam que fazer na tal noite fatídica, de qualquer jeito. Com ou sem ele. Dissera que estava avisando porque era amigo, que gostava de Juliano e falara para ele pensar na mulher; falara que o negócio podia ficar perigoso se ele ficasse de fora; que os caras iam desconfiar se ele ficasse na encolha; que ele não ia querer que a filha se arriscasse a ficar órfã sem nem ter nascido. Juliano queimara por dentro por causa da ameaça evidente, mas engolira a raiva. Não ia bater de frente com aquele filho da puta; sabia das relações dele; do que era capaz. Bicho perigoso. Era preciso ter cuidado. Não custava nada que armasse uma. Estava até surpreso pela consideração que demonstrava por avisa-lo.
Pensara em uma alternativa. Dissera ao Neto que inventaria uma desculpa para não aparecer naquele dia. Ou que pediria para trocar o turno com alguém. O Neto dissera que então deixasse. Que ele mesmo ia arranjar a troca com alguém de confiança. Depois não voltara mais ao assunto por dias.
Quando Juliano chegou à delegacia, Robocop veio até ele, abanando o rabo. Depois do sétimo atropelamento, as fraturas nos braços do cãozinho se consolidaram em uma forma que impedia a dobradura natural dos cotovelos e por isso passou a andar sem dobrá-los. Seus passos duros e o fato de viver sempre nas proximidades da delegacia lhe valeram o apelido. O estacionamento da delegacia e o pátio de uma oficina próxima eram seus lugares favoritos e ninguém se incomodava com sua presença ali. Por outro lado, ninguém achava que tivesse algum valor como vigia: fazia festa para todo mundo, embora nem todo mundo apreciasse sua simpatia: seu rosto, torcido pelas pancadas dos carros, sugeria faltar pouco para a próxima dentada.
Robocop fora criado na rua e era esperto como qualquer cão vadio precisa ser. Sabia atravessar o cruzamento nas horas certas, quando o sinal fechava e as pessoas passavam. Mas ultimamente era cada vez menos comum encontra-lo além da vizinhança. O único lugar mais ou menos distante que ainda freqüentava era a praça que ficava a alguns quarteirões. O cão praticamente vivera ali em sua juventude. Corria atrás dos pombos, brincava com os mendigos e tinha vários lugares discretos para suas necessidades. Mas parecia não ter mais tanto gosto pelo passeio até lá. Já passara dos dez anos e as juntas, tanto as paralisadas quanto as boas, deviam doer. Juliano lembrou-se de sua infância, quando quebrara a perna. A molecada correndo atrás de pipas e ele olhando pela janela. Uma atividade na qual todos se divertem é o que menos interessa a quem está impedido de participar da diversão, exceto se os participantes forem pessoas a quem se quer muito bem. Essas pessoas existiram na vida de Robocop, mas não mais. Os velhinhos que levavam comida para ele, na praça, já haviam partido há anos. Juliano ficou pensando se a mente canina pode conceber algo como a morte; o afastamento definitivo de alguém querido. Talvez sim, talvez não. Talvez ele vivesse sempre em uma expectativa quase alegre pelo dia em que reencontraria seus benfeitores. Talvez.
Juliano deixou o carro no pátio e contornou a mureta que cercava a escada na entrada da delegacia. Ia reparando no quão decadente tudo aquilo parecia, com a pintura em péssimo estado, mato nas frestas do cimento, grades enferrujadas na porta; tudo bem diverso do que se mostrava na propaganda do governo. A propalada reforma, que acontecia célere nas unidades situadas nos bairros mais ricos da cidade, ainda iria demorar para chegar nos subúrbios. Se chegasse.
O turno de Juliano passou com sua rotina de crimes, contravenções e violência. Ele já havia desenvolvido a casca que costuma cobrir alguns profissionais. Um conjunto de muralhas psicológicas e emocionais que o isolavam praticamente de qualquer envolvimento emocional com os acontecimentos cotidianos. Os assaltos, assassinatos, espancamentos, tudo aquilo era apenas sua ração diária de insanidade, que ele temperava com algumas piadas e engolia sem perceber o gosto. Seria apenas mais um dia normal. Aliás, estava até tranqüilo. Nem havia tanto movimento assim. Em alguns momentos, a recepção chegou a ficar vazia. Bom. Era sempre uma chance de dar uma olhada nas apostilas.
Justo em um destes momentos, Robocop, de súbito, entrou correndo na delegacia. Bem, ele não era exatamente um cão normal. Não era bobo! Sabia se virar muito bem. Mas por ter sido atropelado tantas vezes e por causa de alguns comportamentos, como latir para as paredes e saudar pessoas inexistentes, o bichinho já ganhara a fama de que batia o pino. Só que desta vez, passava dos limites. Rosnava e girava como um pião furioso. Ia até a porta, latia e voltava para dentro. Parecia se surpreender com coisas que ninguém poderia saber o que eram. Virava para um lado e para o outro. Depois, assustado, correu para baixo da mesa e, a seguir, foi saindo de ré, latindo o tempo todo. Juliano começou a rir. Tinha pena da maluquice do cãozinho, mas não podia conter o riso. A desgraça alheia, às vezes, é engraçada demais para que a gente resista.
O cão pareceu se ofender com a zombaria: aproximou-se de Juliano, mordeu a bainha da calça e começou a puxar, rosnando. Tinha esses ataques de fúria, de vez em quando. Principalmente quando estava muito nervoso; quando estouravam uma bombinha perto enquanto dormia ou quando puxavam seu rabo para cima, só para implicar. Mas Juliano estava apenas rindo. Tentou acalmá-lo, pediu desculpas, tentou tirar a calça de sua boca. Mas Robocop soltou sua calça apenas quando recebeu um chute do policial. Gemeu e se afastou. Novamente correu para debaixo da mesa e latiu para Juliano. Depois de algum tempo, ergueu as orelhas como se prestasse atenção em alguma coisa. Deu um trote rápido e parou de frente para o corredor. Olhou o espaço vazio e começou a abanar o rabo. Juliano esticou o corpo para ver quem estava vindo, mas não havia ninguém. Robocop gritou, e começou a ganir. Lambia a perna direita em desespero.
Aquilo já ia longe demais. Juliano já estava pensando em como agarrar o cão sem o risco de uma mordida. Mas aí o Neto chegou e, da porta, chamou o bichinho. Robocop ficou paralisado um instante, depois, como se estivesse acordando, caminhou na direção de Neto, abanando o rabo. Agora parecia o cachorro de sempre. Neto afagou a cabeça dele e, quase gentil, mandou que saísse. O bicho saiu tranqüilo; sem ao menos um sinal da insanidade que acabara de demonstrar. Neto tinha um jeito para fazer as coisas acontecerem. Era como se estivesse sempre no comando de tudo. Se ainda não era delegado ali, era apenas porque não queria.
Neto se aproximou e disse que tudo já estava arranjado. Ele já havia cuidado do esquema. Juliano deveria pegar o turno daquela madrugada. Outra pessoa faria seu turno na noite em que aconteceria a fuga. Disse que Juliano não precisava saber quem era, por enquanto. Tinha apenas que voltar e passar a madrugada daquele mesmo dia. E não fazer nada para que o delegado desconfiasse. Para Juliano, aquilo era perfeito. Não queria mesmo saber de nada do iria acontecer. Terminado o turno do dia, mal se lembrava da fuga, do Boquinha ou do Neto. No carro, indo para casa, ia relembrando a matéria que estava estudando para o concurso.
A mulher não gostou de saber que Juliano voltaria para o serviço de novo. Reclamou. Ele sabia que ela não gostava que trabalhasse de madrugada. Gostava menos ainda de ser avisada assim, de surpresa. Ele disse que teve que trocar com um colega que estava fazendo um serviço. Ela falou que ele fazia pelos outros mas ninguém fazia por ele. Disse que quando ele fazia seus bicos, ninguém se dispunha a dar cobertura. Juliano ia ouvindo as reclamações, mas procurava evitar que elas chegassem a sua consciência. Automaticamente ergueu as mesmas barreiras mentais que usava em serviço e a voz de sua esposa tornou-se pouco mais que um ruído de fundo, junto com a televisão, os carros na rua ou as panelas no fogo. Viu sua boca falando, falando, e pela primeira vez pensou seriamente na fuga do Boquinha. Não era um bandido chulé mas também não era nenhum figurão importante. Conforme o nome sugeria, a boca-de-fumo que administrava era quase nada. Comprar uma fuga sempre sai caro. Às vezes, era necessário até matar outros policiais, o que jogava o valor ainda mais para cima. E se tinha alguém que sabia cobrar por um serviço desses, era o Neto. Como é que Boquinha conseguira compra-lo? Será que estava mesmo com aquela moral toda?
A mulher serviu a janta. Comeram, finalmente em silêncio. Ela foi ver televisão. Ele lavou a louça enquanto pensava na fuga do Boquinha. Não tinha mais nada a ver com aquilo. Não era da sua conta. Mesmo assim, pensava. E quanto mais pensava, mais se convencia de que havia alguma treta naquele negócio. Merda! Não tinha mais que pensar em nada. Não devia meter o nariz onde não foi chamado. Mas continuava pensando.
A mulher estava amuada quando ele saiu. Não quis se despedir, dar beijo, brincar. Juliano, irritado com os pensamentos que não saíam da cabeça, também não quis saber. Foi embora sem dizer nada. Grávida é fogo! Requer atenção vinte e quatro horas. Mas não dá pra ser assim. A chapa esquenta, às vezes. Não dá pra ficar paparicando sempre. Ta certo que fica mais sensível e tal, mas porra! Tem horas que não dá. E o barrigão nem tinha crescido ainda. Quando começasse a inchar de verdade, aí ia foder de vez.
Na delegacia, dois travestis discutiam aos berros. Acusavam-se mutuamente de tentar roubar a clientela alheia. Juliano chegou no instante em que as bonecas partiam pro tapa. Quando entrou na recepção, já teve que ajudar a conter a mais parruda. Deu-lhe um pescoção que a deixou atônita. Depois, ela começou a chorar. As duas foram levadas para o xadrez. Bom começo de noite. Nada de anormal. Exceto uma coisa: quem faria o turno da madrugada com ele seria o Neto. Não que isso fosse algum absurdo. O que estranhava era que o outro não havia falado nada quando conversaram durante o dia. E também havia a questão da fuga. Neto só deveria passar a noite ali quando acontecesse a operação. Por que estaria naquela noite? Ele disse que um amigo dele havia pedido a troca, mas isso também era estranho. Neto não costumava fazer favores, embora os pedisse a Deus e ao mundo. Mas tudo bem. Não ia quebrar-cabeça com aquilo.
O início da madrugada correu sereno e lá pelas tantas, o telefone tocou. Neto atendeu, trocou algumas palavras rápidas com seu interlocutor e desligou. Uns dez minutos depois, falou que estava com sono. Perguntou se Juliano cuidava de tudo enquanto dava um cochilo. Tudo estava calmo. Juliano não tinha motivos para segura-lo. Era até melhor porque não gostava de sua conversa fiada. Neto apanhou uma xícara e foi servir-se de café. Juliano achou engraçado e perguntou se o café não ia atrapalhar o sono. Neto fez uma cara esquisita, mas concordou. Largou a xícara e passou para o corredor que levava até a parte interna da delegacia.
Juliano resolveu terminar uns relatórios de serviço que estava devendo. Pegou a papelada e começou a preencher. Depois de rabiscar algumas folhas, resolveu que por hora era o suficiente. Levantou-se para dar uma esticada. Pegou uma xícara de café e chegou na janela. Robocop dormia no pátio, o corpo todo enroscado. Juliano resolveu estudar um pouco. Com a confusão dos travecos, havia esquecido as apostilas no carro. Foi até o pátio para apanha-las. Pegou as apostilas e, na volta, passou pelo cão. Bateu de leve na ponta da orelha do bicho. Robocop sacudiu as orelhas e abriu um pouco os olhos. Bocejou e espreguiçou o corpo.
Quando as três picapes dobraram a esquina, Juliano teve uma sensação ruim. Apanhou a arma e a segurou sob as apostilas. Não queria parecer alarmado demais. Chegou à base da escada da delegacia ao mesmo tempo em que os carros frearam com violência quase em frente. O bando saltou dos carros empunhando fuzis e pistolas e já saiu atirando. Num reflexo, Juliano deixou o corpo cair na calçada enquanto rajadas passavam sobre sua cabeça. Sorte sua que atirassem muito mal e azar o deles que atirasse muito bem, embora não pudesse mirar com muito cuidado. Acertou um deles na barriga. Os outros continuaram atirando e Juliano encostou-se à mureta que cercava e escada. O tiroteio estava brabo e naquele lugar estaria indefeso. Conseguiu acertar mais um e os outros se movimentaram tentando posicionar-se melhor. Era a chance: pulou alguns degraus para cima e depois saltou para dentro da delegacia. Um buraco apareceu em sua perna, pouco abaixo do joelho. Juliano caiu, desequilibrado pelo impacto e pela dor, mas pelo menos já havia passado da porta para dentro. Robocop subiu correndo as escadas e entrou na delegacia também. E onde estava a merda do Neto? Dormindo? Com aquele esporro todo?!
Um painel de vidro da porta foi estilhaçado e um projétil estourou na parede. Robocop rosnava e girava como um pião furioso. Ia até a porta, latia e voltava para dentro. A cada estampido, o coitado tomava um susto. Virava para um lado e para o outro. Juliano não podia ajudar. Estava lutando pela vida, mesmo que no fundo, já soubesse onde aquilo ia terminar. Conseguiu acertar dois, mas sabia que estava perdido. Não tinha como enfrentar os armamentos superiores dos bandidos e sua excelente pontaria não ia servir mais quando a munição acabasse. Gritou para Neto. Vem pra cá, porra! Traga as armas. Mas o Neto não aparecia. Podia tentar o corredor, mas aí estaria totalmente vulnerável e provavelmente tomaria um tiro fatal antes que pudesse abrir a porta nos fundos.
Quando o vidro da janela estourou, Robocop, assustado, correu para baixo da mesa e depois foi saindo de ré, latindo o tempo todo. Depois aproximou-se de Juliano, mordeu a bainha da calça e começou a puxar, rosnando. Essa agora! – pensou Juliano. O bicho estava surtando outra vez, igualzinho ao que ocorrera à tarde. Pelo menos, agora tinha motivo. Parecia até que a maluquice anterior fora um ensaio para a dramática atuação noturna.
Por cima do capô de um dos carros Juliano viu a ponta de uma das armas sendo abaixada. Ele sentiu mais do que entendeu a intenção do sujeito. Quando a mão se ergueu segurando a granada, ele sabia que a guerra tinha que ser vencida ali. Mirou e acertou a base do punho. Houve um grito e a granada caiu no chão. Os outros pularam para todos os lados e Juliano ainda conseguiu acertar mais um, desta vez na perna. A granada explodiu, liquidando com quem pretendeu arremessá-la.
Juliano chutou Robocop para que soltasse sua calça. O bicho deu um gemido e se afastou. Novamente correu para debaixo da mesa e latiu para Juliano. Lá fora, o que restou do bando desistiu da operação. Atiravam a esmo contra a delegacia, mas já estavam entrando de volta nos carros. O primeiro cantou os pneus e partiu sem esperar pelos demais. Juliano mudou de posição para vigiar os outros. Deu uma olhada rápida, com o canto do olho, para saber como estava o cãozinho doido. Robocop saíra da mesa e estava de orelhas erguidas como se prestasse atenção em alguma coisa. Juliano achou engraçado o modo como a cena se repetia. Para completar, agora só faltava o bicho ir para a entrada do corredor, latir e abanar o rabo.
Robocop trotou rápido em direção ao corredor. Juliano ainda vigiava a rua. Robocop latiu.
O latido ligou alguma coisa na cabeça de Juliano. Aregalou os olhos e seu coração, ainda acelerado por causa da luta, bateu ainda mais feroz. Com a mão livre, agarrou a mesa e a usou como apoio para mover o corpo violentamente para o lado, mal evitando o tiro que vinha pelas costas, à traição. A bala rasgou sua orelha e fez um buraco em uma das gavetas. Quando Juliano caiu no chão, já estava encarando seu quase assassino. Neto! Mas não havia tempo para pensar nisso; não havia tempo para mais nada. Apenas disparou a pistola na direção do colega e acertou-lhe perto do fígado. Neto também disparou, parecendo não ter sentido muito o tiro que levara. Bicho ruim! Conseguiu acertar o ombro de Juliano. Sorte deste que o outro havia se desequilibrado com o primeiro tiro. Mas não passaria do segundo. Desta vez, Juliano fez a mira com mais cuidado e abriu o peito de Neto bem sobre o coração. O homem quase voou para trás, mas ainda conseguiu se escorar na parede. A pistola não saía de sua mão e nos seus estertores ainda disparou outra vez. Robocop deu um grito e começou a ganir. Sua perna direita rapidamente ficou vermelha de sangue. Começou a lamber a ferida aberta.
Juliano verificou o corpo de Neto. Morto. Foi até o xadrez. Boquinha ainda estava na cela. Neto era cuidadoso. A grade seria arrombada para disfarçar melhor a cooperação com os bandidos. Boquinha ficou decepcionado: não era Juliano que ele esperava ver. Começou a xingar e ameaçar. Depois disse que poderia fazer um acordo. Juliano ignorou os apelos. Voltou à recepção e começou a dar os telefonemas.
Juliano recuperou-se depressa dos ferimentos. Sua condição de saúde justificaria um afastamento de cerca de um mês apenas, voltando, de início, com um serviço mais leve. Entretanto, com a ajuda de alguns contatos, conseguiu enrolar a licença por três meses, tempo suficiente para passar no concurso de analista judiciário e encerrar a carreira policial. Por sua persistência em não se envolver, nunca fora uma figura benquista. Com a morte de Neto, passou a ser menos ainda: havia perturbado o caixa dois de muita gente ligada ao agora defunto. O mais rápido que pôde, conseguiu uma transferência para outra cidade e partiu com a esposa e o bebê não-nascido; um menino, a ultra-sonografia mostrara. O cão foi levado junto.
Robocop estranhou um pouco a experiência de ter um dono àquela altura da vida, depois de ser vagabundo por tantos anos. Entretanto, com os braços paralisados e coxo de uma perna, a rua era um ambiente quase impraticável. Teve uma existência sossegada nos poucos anos que lhe restaram e sua morte causou tristeza na família, mas também um certo alívio para a mulher de Juliano. Mesmo não sendo mais policial, ele continuava andando armado e havia adquirido uma estranha mania: sempre que o cachorro parecia estar latindo para as paredes, Juliano se apressava a verificar se a pistola estava carregada. (http://apraca.blogspot.com/)

15.8.04

4 - Irmã

Ela comprou um saquinho de pipocas e caminhou um pouco pela calçada da praça. Escolheu um banco em um local bem isolado e sentou-se. O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço. Aquilo a cansava, às vezes. Tinha que estar em constante alerta e isso diminuía um pouco o prazer de fazer as coisas. Parecia estar sempre vivendo pela metade, participando de tudo pela metade porque uma parte de si precisava estar sempre tomando conta do lenço, da touca, do chapéu... Era mais fácil no inverno. Mas no verão de um país tropical era uma coisa até difícil de explicar para os outros. Isso, afora o calor que sentia na cabeça; quão desagradável!
Jogou uma pipoca no chão. Os pombos vieram de várias direções e começaram a disputar a migalha. Colocou as pipocas de lado, abriu a bolsa e tirou uma carta. De vez em quando, recebia notícias da irmã mais nova. Os negócios iam bem. Como sempre. Novos mercados, novos países, novas partidas de mármores, granitos e quaisquer outros tipos de pedras decorativas. Adorava a caçula, mas não suportava a forma como a pequena fazia piada da maldição de sua família. E ela sempre fazia piada. Há muito tempo atrás pensou que ela, um dia, passaria a respeitar a memória do triste destino, mas o tempo passou e ela nunca deu a mínima. No fundo, talvez estivesse certa. Como seria bom não cultuar o passado! Viver como a irmã; rir de sua própria desgraça. Cuidar dos negócios, praticar esportes, viajar, curtir as paixões. Não, não exatamente como a irmã. Não apreciava muita badalação. O que ela curtia era dar aulas para seus alunos; tão talentosos! Ler os livros de arte e cultura que escolhia com cuidado para sua estante. E, secretamente para que não fosse execrada pela comunidade acadêmica, gostava de devorar aqueles romances melados de adolescentes, vendidos praticamente a quilo nos sebos que freqüentava. Mas em todas as coisas, em cada pequena fresta de sua vida, parecia haver sempre algum detalhe que a levava de volta aos dias distantes, à época em que a irmã mais velha ainda vivia. À época antes que houvesse ajudado o assassino a dar cabo da desgraçada.
O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço. Aquilo era desagradável. Um lembrete constante de como era anormal sua presença, ali, entre as pessoas, vivendo e se relacionando com elas como se fossem iguais; como se não fossem apenas insetos, prontos para serem exterminados com um gesto. Não! Não era assim que pensava. Essa era sua irmã mais velha falando por sua boca. Sempre dominadora mesmo estando morta. Tão segura, tão imponente, tão cruel. Provavelmente fora a fama de sua personalidade abominável que dera origem aos absurdos contados nas lendas e nas poesias antigas. Um apanhado de absurdos e parvoíces, assentado mais na ignorância e assombro daqueles dias do que na verdade.
Verdade! Apenas uma inspiração distante para as narrativas que correram os séculos. Mas assim era a gênese dos mitos. Todos eles.
O pior de se lembrar da irmã era que imediatamente se lembrava de Niklas. Niklas dos olhos inocentes. Niklas do coração tão puro que ela podia ver seu brilho. O filho dos pescadores, únicas pessoas que se arriscavam a aproximar da ilha onde vivia com as outras duas. O moço, lindo, herdara a coragem do pai. Era o velho que levava os peixes e mantimentos. Depois, já impedido pelo preço que o mar cobrou de sua saúde, passou ao filho a responsabilidade. De olhos vendados, o jovem saltava na praia e agüentava as imprecações e ameaças da tirana infeliz. Mas ele não baixava a cabeça e não se deixava assustar, apesar de estar à sua mercê. Não! Não só da abominação. As mais jovens tinham personalidades detestáveis naquela época, embora pudessem ser chamadas até de simpáticas se comparadas à mais velha. Mas o rapaz era sempre firme e sereno. Jamais alguém zelara melhor pelo acordo que garantia os víveres das três: ele trazia a comida e levava, em troca, as pedras de fino mármore que eram vendidas a artistas e arquitetos.
O lenço saiu de posição. Ela enfiou a mão por dentro da touca, puxou o lenço para cima e apertou o laço.
Já conhecia Niklas desde quando o velho o levara para o mar, ainda menino, quase. Ele cresceu ajudando o pai e descobrindo os segredos do oceano, aprendendo os ardis para capturar os peixes e os cardumes; desenvolvendo-se em força, beleza e bravura. E, de longe, ela o observava, evitando a todo custo que ele pudesse vê-la.
A lembrança era forte e lágrimas surgiram. Minuciosamente ela examinou os arredores. A praça estava quase vazia naquela hora. Curvou-se para o lado e, cuidadosamente, ergueu um pouco a base dos óculos escuros que lhe comprimiam a face. Secou rapidamente os olhos úmidos e recolocou os óculos no lugar.
Lembrou-se do rosto da irmã. Ninguém poderia fazer idéia do ódio que sentia, mesmo depois de tanto tempo. Como gostaria de tê-la matado pessoalmente! Apenas uma vez, em toda sua existência, quis usar de verdade o poder. Quis controlar aquela força ignóbil e maldita para aniquilar a irmã maligna. Quão lastimável era o fato da desgraçada ter o mesmo dom e, por isso, ser imune aos efeitos daquele sortilégio! Se houvesse justiça no mundo, a perversa teria sido fulminada muito antes que a desventura pudesse ter acontecido, antes que pudesse descobrir as visitas que Niklas lhe fazia em segredo. Se as coisa fossem perfeitas, ela jamais teria visto os amantes. E não teria invejado os abraços e beijos cheios de paixão.
O lenço saiu de posição.
Ela já estava cansada de lembrar daquilo. De se lembrar de como a irmã mais velha a atraíra para longe da ilha e de como havia apreciado contar depois cada detalhe da história infame. A traiçoeira se fez passar por ela quando ele chegou naquela noite sinistra. Ele sempre estava com a venda nos olhos e assim foi enganado. A maldita quis saborear o prazer que sempre esteve fora de seu alcance. E como gostou de fazer aquilo! Mas isso ainda não foi o bastante. Depois de saciar-se veio a suprema perfídia: ela o fez acreditar que havia coberto seus próprios olhos para que ele a visse em segurança e ele desvendou-se.
Sob a touca, era possível ver algo se movimentando.
Do resto, ela não conseguia suportar a lembrança. Era doloroso demais. Mas ela teve sua vingança, infelizmente na forma de um estúpido tão apavorado que teve que ser levado praticamente bêbado para a ilha; do contrário, seu medo o teria impedido. Ela também teve que convencer a irmã mais nova a participar da desforra porque a outra era muito forte. Mas não foi tão difícil, pois a pequena também se ressentia do seu despotismo. Juntas elas imobilizaram e ensacaram sua cabeça para que o palerma pudesse se aproximar, trêmulo e hesitante, e fazer seu serviço. E até hoje ele ainda era exaltado pelo seu heroísmo; haja paciência!
Estava triste, estava contrariada, estava com raiva. Queria que alguém mais experimentasse um sabor desagradável, tal como aquelas lembranças. Na borda da touca, uma pequena língua bífida apareceu e farejou o ar. Sentiu o cheiro dos pombos. Ela enfiou a mão sob a touca e segurou com força a dona da língua. Era uma pequena serpente. Pegou uma pipoca e enfiou pela goela da cobrinha adentro. A víbora, mesmo contrariada, não teve opção senão engolir o petisco. Ela empurrou a cobra para junto das outras, sob o lenço.
Puxou o lenço para cima e apertou o laço. (http://apraca.blogspot.com/)

8.8.04

3 - Evidência

A boca se abriu tanto que quase deslocou a mandíbula. Isso sim era bocejo de verdade! Pena que acordava. O livro caíra ao lado do corpo. Felizmente não havia se emporcalhado: a grama ali era muito limpa. Aliás, era tão limpa! Nenhuma sujeirinha; um pozinho, um papelzinho de bala, nada! O contraste com o resto da praça era tão nítido que só mesmo a sua já lendária desatenção evitava que percebesse. Também não havia formigas, larvas, mosquitos, lagartas, vespas e mais nenhum desses aborrecimentos rastejantes ou hematófagos. Pelo menos não havia para ele, embora o mesmo não pudesse ser dito para as demais pessoas. A árvore onde estava encostado jamais deixara cair nem ao menos uma folha seca sobre seu corpo. Para ele o lugar era sempre perfeito. Nada o incomodava. Nenhum outro lugar poderia fazer tão bem ao seu ócio.
Abriu o livro na página em que se explicava o conceito de molaridade. Escrito a lápis, em um canto, havia um trecho de Cecília que adorava: “Dormireis um dia como pedras suaves”. Nada podia ser mais apropriado para uma aula de química. E pensando na soneca da aula, lembrou-se de que estava despertando. Olhou o relógio: dormira demais!
Levantou-se, limpou uma sujeira inexistente das roupas e olhou as cores do poente no céu. Às vezes tinha um sonho de viver em um lugar onde sempre fosse o entardecer. Onde as nuvens eram sempre pintadas de laranja e roxo e o sol era pouco mais que um semicírculo enorme, acima do horizonte.
A folhagem da árvore farfalhou. Ele se voltou e a tocou naquele lugar especial. Podia jurar que, de vez em quando, ouvia seu nome sussurrado por aquelas folhas. Sentia uma afeição muito grande pela árvore gigantesca, a ponto de muitas vezes preferir sua companhia à de seus colegas de escola. Ela também era a confidente dileta, de ouvidos sempre prontos e boca sempre fechada. Ela sabia seus maiores segredos, seus medos, seus planos e paixões. Inúmeras vezes ouvira seus risos e, quando necessário, colhia suas lágrimas. E recentemente, tornara-se testemunha e testemunho escrito do que ele sentia: um coração entalhado no tronco cercava o nome do casal apaixonado.
Hora de correr! Estava atrasado. A amada estava esperando. Ele já podia ver o beicinho que ela faria; o zangado e adorado beicinho da coisa mais linda da face da terra. Quando foram apresentados seis meses antes, ficara intimidado pela alegria constante, pelos gestos frenéticos e pelo jorro interminável de prosa que se derramava daquela boca. Também ficou profundamente perturbado por se descobrir pensando nela cada vez mais, por querer saber tudo que estivesse fazendo, pela vontade, pela necessidade de um pensamento, uma idéia que fornecesse um pretexto para se aproximar dela, jogar um assunto, e deixar a música de sua voz tocar, e tocar, e tocar... Riu-se. Não podia haver coisa melhor. O coração corre selvagem e só os devaneios conseguem ser mais afoitos. Pensava em como se deitaria com ela, como tocaria sua intimidade e seria tocado. Pensava em filhos e pensava em netos. E sabia que sua paixão seria para sempre e, embora não tivesse pensamentos de morte, pensava que até essa condição seria superada pelo amor que sentiam.
Estava atrasado. Em sua cabeça já representava o papel, que lhe dava tanto gosto, na pequena tragédia das acusações de que as coisas não eram mais como no começo. Adorava aqueles dramas; contando os segundos para convencê-la de que o fogo jamais se apagava, de que o amor, como a justiça divina, tarda mas não falha. E se jogaria aos seus pés. Ajoelhado, agarrado a suas pernas, e com o rosto tão próximo de seu sexo quanto poderia estar sem que ela se ofendesse, ele iria implorar pelo seu perdão. E momento supremo; quando a Deusa apaziguada, soltando um suspiro, deixaria que se aproximasse, que acercasse seus lábios entreabertos e permitiria o beijo. E depois, sôfrega, ela corresponderia e, sem nenhum esforço aparente, eliminaria todo ar de seus pulmões.
Chegou ao local combinado apenas dez minutos depois do horário. Todo deleite da antecipação fez apenas piorar seu desapontamento: ela não estava ali. Estranhou, porque jamais soubera maior pontualidade. Ficou aborrecido, menos com o atraso do que com o fato de que não presenciaria sua zanga de mentirinha. Ligou, mas o celular não completou a chamada: ela estava fora de área. Ficou ali esperando e ligando até que o atraso passasse de qualquer limite razoável. Partiu para sua casa quando não suportou mais os sentimentos de raiva e preocupação que se alternavam e por fim se mesclaram num só. Encontrou a mãe dela e soube que não havia acontecido nenhuma desgraça. Ela estava bem; apenas não se encontrava em casa e a mãe se recusou a dar maiores informações. Disse que era melhor que os dois conversassem depois; na escola, talvez.
Alguma coisa no tom embaraçado e evasivo daquelas palavras bateu com força nos sentimentos dele. Foi para sua própria casa enquanto quimeras assombrosas tomavam conta de seus pensamentos. Os dons premonitórios próprios das decepções amorosas vindouras já pressagiavam o sabor do fel que provaria em breve. Pois já na entrada das aulas, no dia seguinte, ele a encontraria fria e reservada. E ela dizia que tinha uma coisa muito séria para falar e ele já sabia o que era - o que mais poderia ser? – mas não entendia. Se recusava a entender, e ela dizia que as coisas eram complicadas, e ele queria saber por que, e ela queria escapar de suas mãos, e ele insistia, ela resistia, e ele, afinal, permitiu que a solução do enigma, cristalina como a água, chegasse à sua consciência. Um coração não se esvazia tão depressa. Não se esvazia, mas pode ser preenchido com alguma outra coisa. Um outro sentimento. Uma outra pessoa.
No meio do buraco negro que se abria e tragava seus pensamentos, ele ainda conseguiu surpreender-se com o quanto a mente pode ser simultaneamente tão afiada e obtusa. Naqueles breves momentos, em que os dedos daquela mão delicada se desvencilhavam dos seus, em sua cabeça ele juntou com precisão todos os sinais de seu afastamento que já vinham se acumulando sem que notasse. Não! Não era sem que notasse. O certo seria: sem que desse atenção. Cada uma das pequenas atitudes que pediam distância, tempo, separação; as peças ignoradas por semanas, encontravam, em segundos, seu lugar em um quebra-cabeça sinistro. Ele até sabia quem era o rival. Não precisava pedir a ela que dissesse o nome. Não precisava pedir que dissesse mais nada. Não tinha mais o que fazer ali, com ela ou qualquer outra pessoa, naquela escola. Quando as lágrimas vieram, as glândulas nos cantos dos olhos doeram da força que fizeram. O choro desceu grosso pela face.
Correu. Queria ser mais rápido que o pensamento, que as lembranças. Queria fugir da vergonha de ser trocado por outro, e da vergonha maior de não ter se controlado, de não conseguir sufocar o sentimento. Não é assim que devia ser. Ele queria pegar sua paixão como se fosse uma galinha velha e passar-lhe a faca no pescoço. Impassível, queria assistir ao sangue escorrendo de seu peito até que o coração fosse uma tripa murcha. Depois esfregaria com um pouco de água sanitária e estaria limpo e pronto para um novo amor. Mas não era nada disso que acontecia dentro de si. Era como um motor correndo em seu giro máximo, mas em ponto-morto. Era um recém-nascido tão prematuro e sem esperança que, das dores do mundo, só tinha tempo de conhecer a da morte.
Não importava a direção para onde corria. O destino era um só. Veloz e meio às cegas, ele chocou-se quase violentamente com o tronco da árvore. Abraçou-a o mais forte e amplamente que podia. Seu rosto ficou de frente para os nomes entalhados e ele viu que uma resina descia pelas aberturas dos cortes que ele mesmo havia feito. Ele havia ferido a árvore. E tudo por nada. Sua tristeza foi ainda maior e a ela se juntou o remorso. Tocou no líquido espesso que a árvore vertia. Derrotado, envergonhado, arrependido. Culpado. Ele queria que a árvore o perdoasse. Se pudesse, faria qualquer coisa para fechar aquelas cicatrizes. Num impulso insano, beijou-a na chaga aberta.
E imediatamente ele soube. Ele soube de ciclos de luz e de escuridão. Ele soube de estações úmidas e secas. E soube de pássaros, ninhos, frutas e sementes. Ele viu o sol erguendo-se e caindo mais vezes do que seu coração já batera em toda vida. Sentiu os sabores e os aromas. Sentiu o frio e o calor. Ele conheceu o modo de se fixar em um lugar, e crescer, e existir por um período de tempo inimaginável para qualquer ser humano. E soube da solidão daqueles que são os últimos de suas raças. Da triste perspectiva de desaparecer sem deixar vestígio, marca ou descendência.
Afastou-se dela. O que experimentou era tão formidável, tão diferente de tudo, que ele não conseguia mais ficar triste com sua desilusão amorosa. De repente, aquilo parecia algo minúsculo e distante e ele sentia-se quase ridículo por ter sentido tanta dor devido a uma paixão adolescente. O mundo, a vida, tudo agora, adquiria um aspecto diferente; maior e mais profundo.
E por esse novo ponto de vista, ele compreendeu de imediato as implicações do que acabara de conhecer. Tomou uma decisão. Mas não poderia executá-la imediatamente. Ainda havia muito o que fazer, e viver, e preparar. Seria um namoro longo. A árvore teria que ter paciência. Mas isso era exatamente o que não lhe faltava.
Ele sabia. (http://apraca.blogspot.com/)

28.7.04

2 - Perfeição

Ele olhou para o sol e depois para o espaço sob as árvores, procurando uma boa posição para a foto. A praça oferecia muitas locações boas e ele não teve dificuldades para encontrar o ponto ideal. Quando ela passou, fazendo seus exercícios matinais, ele ainda estava agachado experimentando um enquadramento para a imagem que gostaria de retratar. Distraída, ela pisou em uma poça do barro, que se formou com a chuva da madrugada. Um escorregão, e se viu, de repente, caindo sobre ele sem qualquer chance de evitar o choque. Os dois tombaram no chão e rolaram pelo declive suave. Ele fez um giro e se pôs de pé, rápido o suficiente para ainda segurá-la e evitar que continuasse rolando.
Ainda tonta do choque e das cambalhotas, ela ensaiou dizer um pedido de desculpas. Isso, antes de poder olhar nos olhos dele. Eram cinzentos, mas com uma tendência para o azul. E transmitiam uma perturbadora firmeza. Ele sorriu e ela percebeu as pequenas marcas de expressão de seu rosto. Se a perguntassem, ela diria que ele estava na faixa dos quarenta anos. Mas deixava no chinelo qualquer rapaz de menos idade, tanto pela beleza quanto pelo vigor que ela podia sentir nas fortes e grandes mãos que a apoiavam. Involuntariamente ela engoliu o ar como num soluço e quase se engasgou. Ele abriu ainda mais o sorriso. Então, enfiou a mão em um dos muitos bolsos de seu colete, retirou um tipo de câmera instantânea e bateu uma foto dela. Quando a foto saiu, ele a colocou em suas mãos, despediu-se com um aceno de cabeça e se afastou.
Atordoada, ela tentava entender o que estava acontecendo e o que devia fazer. Olhou para a foto, mas a revelação ainda não estava completa. Quando finalmente se lembrou de que sabia fazer outra coisa além de ficar estática, ela olhou ao redor, mas não conseguiu localizar o autor do retrato. Limpou um pouco da sujeira das roupas e pensou em retomar os exercícios, mas sentiu-se desanimada. O incidente havia tirado o tesão da corrida. Resolveu que era melhor voltar para casa. Durante o retorno ficou o tempo todo pensando naqueles olhos cinzentos.
Quando chegou em casa, na secretária eletrônica havia um recado de um colega de serviço pedindo que chegasse mais cedo naquele dia. Ela olhou o relógio e viu que teria que se apressar. Colocou a foto na borda do quadro de cortiça em seu quarto e correu para o banho. Saindo do banho ela foi até a mesa da penteadeira, tirou a toalha dos cabelos e começou a escová-los olhando seu reflexo no espelho. Imediatamente seus olhos começaram a procurar pelos sinais, mesmo que imaginários: rugas, pés-de-galhinha, olheiras, falhas de tintura na raiz do cabelo e todas as demais coisas para as quais os olhos femininos são treinados durante uma vida inteira. Apanhou o retrato feito de manhã e começou a comparar com a imagem no espelho. Só então pode estudar a foto com cuidado. Ficou surpresa por não ter reparado antes, os detalhes que agora ficavam evidentes. Percebeu que a foto havia sido muito bem batida. Um trabalho de profissional. E dos bons. A luz incidia em ângulo favorável e concedia à pele um brilho e textura excepcionais. A cor de seus olhos, que normalmente achava tão sem graça, era, naquela imagem, algo misterioso e profundo. Seus cabelos tinham viço e volume, seu rosto aparentava possuir um bronzeado saudável.
Não que se achasse feia. Não era o caso. Ela era desejada, sabia, pelos homens que a conheciam. E percebia a admiração das mulheres no escrutínio diário a que era submetida; quando suas colegas, até com certa ansiedade, faziam o inventário de qualquer pequena imperfeição que as ajudasse a se consolar de sua própria falta de beleza. Não. O que havia ali era algo diferente, meio impalpável. Nenhum detalhe da imagem empanava a beleza nova revelada pela foto. Que aliás, era inacreditavelmente bem feita, dadas as condições em que foi batida. Era quase um milagre que o retrato não estampasse a cara de idiota que certamente estava fazendo depois da confusão toda. Quanto mais olhava, mais crescia em si a percepção de um ideal; um tipo de ápice estético, concepção máxima do que poderia ter sido se tivesse feito as escolhas certas, se não tivesse fumado por mais de dez anos, se não tivesse se casado com o homem de quem se divorciara quando descobriu que havia estuprado a própria irmã, se não chorasse tanto, se não bebesse tanto, se tivesse se cuidado mais, se tivesse sido feliz.
Mas alguma coisa iluminou seu pensamento. Ela percebeu que, embora não viesse a atingir tudo que a foto insinuava, ainda havia tempo para resgatar muito do que pudesse ter perdido. Se olhasse as coisas do ponto de vista certo, ela podia enxergar uma grande realização para si própria. Não era justamente o que a imagem sugeria? Começou a sentir-se animada. Teve um sentimento bom com relação ao futuro. Ainda é tempo e o mundo estaria aberto se estivesse pronta. E era isso que sentia segurando aquela foto. A mulher no retrato transpirava sucesso, felicidade, inteligência. Aquela era a imagem do que deveria realizar para si.
Colocou a foto em uma bolsa e se apressou para terminar de aprontar-se. Resolveu que na hora do almoço deveria comprar um porta-retratos para guardar o seu... tesouro? Tesouro, sim! Por que não? Era isso que havia encontrado, não era? Um tesouro escondido em si; desencavado pela extraordinária habilidade de um fotógrafo belo e misterioso, com o qual um reencontro, embora tentasse não admitir, já era o primeiro item na sua lista de prioridades para o dia seguinte.
No caminho para o serviço, foi enchendo sua cabeça de planos sobre como devia mudar sua vida de agora em diante, como ia correr atrás do ideal que a foto prometia. E a promessa era tão boa, que naquele dia ela entrou radiante no prédio onde trabalhava. Sempre fora gentil com todas as pessoas, mas naquele dia estava muito contente e as contaminava com a euforia que estava exalando. Parecia deixar um rastro de alegria conforme ia caminhando e cumprimentando seus colegas.
Estava chegando ao seu corredor quando foi quase atropelada por um pequeno garotinho, um tiquinho de gente, que corria entre as baias soltando pequenos gritinhos infantis e gargalhadinhas. Devia ser filho de alguém da limpeza. Eles ás vezes passavam por ali com suas crianças a caminho da creche. Animado, o menino corria de cubículo em cubículo, procurando por alguém. Sua alegria parecia refletir a que ela estava sentido. Ela teve que se controlar para não entrar na brincadeira também. As memórias felizes de sua infância vieram em um jorro. Houve uma época! Houve alegria, houve felicidade. E ela sabia que naquele momento dava os primeiros passos para reencontrar o caminho que perdera.
Chegou à sua baia, que dividia com uma colega. Cumprimentou-a, mas só teve um resmungo como resposta. Não ligou. Não se importaria com esse tipo de coisa; não naquele dia. Sentou-se em sua mesa, arrumou algumas coisas e abriu um espaço para colocar a foto. Achou um lugar bom e a deixou ali, escorada por um porta-lápis. Queria passar o tempo sob a inspiração daquela imagem. Aquele seria um dia muito bom, ela tinha certeza.
O colega da baia vizinha percebeu que ela havia chegado e botou a cara por cima da divisória. Foi ele que ligou para ela pedindo ajuda. Precisava fazer um corte em uma peça na qual estava trabalhando mas não estava conseguindo de jeito nenhum. Ele não precisava ter esperado por ela. Poderia ter pedido ajuda antes, à sua colega de baia, a rezingona, mas provavelmente não o tinha feito para evitar que a moranga (contração de mocréia com baranga, que era como todos a chamavam pelas costas) tivesse um pretexto para conversar com ele ou pior, tentar algum tipo aproximação. Aliás, pensando bem, percebeu que de todo escritório ainda era a única a tratar a pobre coitada com um mínimo de condescendência. Mas essa segregação ia acabar, ela resolveu. A mudança que planejava para si envolvia também ajudar as outras pessoas. Não queria tornar-se uma santa dos desesperados, mas estava decidida a fazer o que pudesse para melhorar o convívio de todos à sua volta. E por que não começar com a colega mais próxima?
Ainda pensado em suas decisões para o futuro, ela apanhou seu estilete e foi até a baia vizinha. O corte em que o outro estava trabalhando era mesmo melindroso. Ela fez uma pequena parte, explicando a ele como deveria fixar a peça a cortar e posicionar a lâmina; qual o ângulo, pressão e profundidade corretos para o corte. Ele agradeceu e completou o corte sob sua supervisão. Não ficou exatamente bom. Não tão bom quanto seria se ela o tivesse feito totalmente. Ainda assim, o serviço dele foi satisfatório. Ele teria que praticar para aprender a fazer com perfeição, mas com relação a isso, ela já não poderia ajudar. Voltou para sua baia. Trazia seu estilete na mão e ele estava com a lâmina exposta.
A primeira coisa que notou foi que a moranga (tinha que parar com isso, repreendeu-se) estava rindo. Rindo! Claro, não chegava a uma gargalhada. Era um risinho, assim, meio abafado. E quão raro era um acontecimento desses! A mor... a colega rindo! Agora tinha a prova: esse era mesmo um dia extraordinário! Será que aquela euforia (vindo daquela colega, mesmo um riso baixo e contido poderia ser classificado como eufórico) tinha a ver com seu próprio estado de espírito? Um pensamento meio presunçoso - observou. Provavelmente ela estava se lembrando de alguma coisa engraçada, uma piada (quem contaria uma piada para ela?) ou qualquer outra coisa meio cômica. Mas quem sabe? Pode ser que sua felicidade fosse tão contagiosa que até a ... pobre colega estava sendo atingida. Se fosse isso, então era realmente admirável o efeito que uma simples fotografia podia causar.
A foto! Havia uma coisa diferente e ela rapidamente percebeu o que era. Na cabeça impressa na imagem, desenhados com caneta de ponta fina, haviam dois chifrinhos de diabo; desses que se fazem em santinhos de políticos e fotos de revistas de celebridades. No rosto estava desenhado um bigodinho acompanhado de um cavanhaque. E para completar, por trás de si aparecia um rabinho com a ponta em forma de seta. Tudo rabiscado de forma tosca e inábil. Ela pegou a foto com a mão livre e olhou as garatujas demoradamente. Levou um tempo para a mente assimilar o que havia acontecido. O efeito da desfiguração ficava muito mais bizarro quando comparado à qualidade da imagem que ainda podia ser vista.
Ela tentou se controlar, tentou dizer para si que aquilo era só uma foto, que no dia seguinte encontraria o fotógrafo de novo, ou então que poderia ir a algum estúdio e retocá-la, ou bater de novo. Tentou se convencer de que o que importava era a mudança que havia planejado para si e as idéias que havia elaborado. A foto era só um objeto. Um pedaço de papel coberto de tinta (de caneta, inclusive).
Mas qualquer pensamento em sua cabeça era sufocado por um sentimento estranho, quase como se viesse de outro lugar que não fosse ela mesma. Sentia o estômago queimando. A boca salivava mas o líquido quase não encontrava espaço para passar entre os dentes cerrados. A mão que segurava a foto tremia. Agora a mandíbula começava a bater. E lentamente começou a perceber que era ódio, o que estava sentido. Mas era um tipo de ódio que ainda não conhecia e nem sabia possível. Havia o rancor pela deturpação da imagem, pela afronta, pela zombaria, mas com isto ela poderia lidar. O que ela não sabia controlar era a raiva que vinha de um lugar profundo e desconhecido, como o ódio que a vítima sente pelo criminoso, que toda presa sente pelo predador ou o que as trevas sentiram da luz pelos séculos. E a moranga ria. Na verdade, agora a filha da puta estava quase gargalhando. O corpo destituído de atrativos estremecia e a respiração era cortada por pequenos espasmos. Suas fingidas tentativas de conter o riso serviam apenas para intensificar o deboche. Aquela coisa soluçante seria a primeira pessoa a quem teria dedicado a solidariedade recém-descoberta. E ali estava a criatura, tendo um verdadeiro orgasmo com aquele ultraje. Sua mão horrorosa ainda segurava a caneta de ponta fina.
Sentiu a pressão subindo. As mãos se contraíram e ela percebeu que ainda segurava a lâmina.
A trajetória foi calculada e os olhos miraram o alvo. Os dedos se posicionaram para melhorar a empunhadura. Quase automaticamente a mão encontrou o ângulo certo. O tronco girou para o lado, torcendo o corpo como uma mola; tesa, pronta para a explosão.

Era realmente habilidosa com o estilete. (http://apraca.blogspot.com/)

1 - Alfa e Ômega

O homem atravessou a rua, mas hesitou antes de pisar na calçada. Havia um anjo na praça. Ele ficava parado ali, logo depois do chafariz. Era um anjo da morte, o homem tinha certeza. Já o vira antes. Mas sempre sentiu tanto horror daquela aparição, que nunca se aventurara a passar perto. Evitava até mesmo olhar. O anjo, o que quer que estivesse fazendo na praça, parecia ignorar o homem. Pelo menos, era o que o homem pensava, ou melhor, gostava de pensar.
Aliás, o que o anjo estaria fazendo na praça? Estaria esperando por quem deveria matar? Será que precisava de alguma coisa, um sinal ou acontecimento? Como saber? Por outro lado, talvez estivesse apenas observando como as pessoas levam suas vidas. Tentando fazer algum sentido do vai-e-vem caótico.
As perguntas e conjecturas já haviam circulado pelo emaranhado dos miolos do homem por muitas e muitas vezes, mas nunca em nível consciente. Qualquer idéia relativa ao monstro era soterrada profundamente pelo medo. E quando ao medo se junta a incerteza, torna-se inevitável que a curiosidade fique mais forte a cada instante.
A peleja entre a bisbilhotice e o cagaço se estendeu por anos. Claro, com o passar do tempo, o homem percebeu muitas coisas sobre o anjo: que ele era extremamente quieto, que suas asas de pássaro estavam sempre estendidas, que ele não usava roupas mas seu sexo não podia ser definido. Porém, acima de tudo, havia percebido que ninguém parecia se incomodar com ele. Pessoas passavam perto dele, a ponto de quase o tocar. Paravam próximas e algumas até o encaravam. Era como se, mesmo sendo capazes de vê-lo, ninguém pudesse enxerga-lo. Ou talvez, ninguém percebesse que era um anjo da morte. Mais ainda, pode ser que todos tivessem decidido, tal como o homem, que era melhor não deixar que os outros soubessem que eles sabiam do anjo da praça. Os mais corajosos chegavam perto só para ocultar melhor sua covardia. Obviamente, de todas hipóteses, a que mais assustava o homem era a de que o anjo estava ali esperando por ele, apenas ele; aguardando com paciência infinita pelo dia em que o homem chegasse bem perto, ao seu alcance. Seja como for, o homem decidira ainda na juventude, que não daria esta chance à criatura. E ele cumpriu a promessa que fizera a si, até o dia em que um infarto fulminante o atingiu enquanto dormia em sua própria cama.
Pouco tempo depois que o homem morreu, o encanamento do chafariz da praça entupiu. Depois, um inverno muito rigoroso acabou de matar os poucos arbustos que ficavam espalhados aqui e ali, nos jardins secos. Os brinquedos foram enferrujando, os objetos pintados começaram a perder suas cores e lentamente a pracinha foi entrando em decadência. As pessoas passaram a evitar o lugar e tudo foi ficando abandonado. No ano seguinte, a prefeitura, assanhada pelas eleições vindouras, resolveu demolir tudo e fazer uma nova praça. Melhor, mais moderna e que rendesse muitos votos. Durante as obras surgiu um impasse: o que fazer com a estátua alada que ficava bem centro da área. A pesada peça de bronze não combinava com o novo projeto paisagístico. Entretanto, era item de valor histórico e não poderia ser destruído. Afora esses problemas, uma série de pequenos inconvenientes impediu que a estátua fosse simplesmente abandonada em algum depósito. Após algum debate, ficou decidido que a escultura seria recolocada em outra praça. Surpreendentemente foi muito fácil decidir sobre o novo local: um espaço do outro lado da cidade, de ares mais clássicos, onde um novo e belo pedestal decorado de mármore serviu de pouso para o ícaro metálico.
A eleição daquele ano rendeu muitos votos.
(http://apraca.blogspot.com/)

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